Pelo olhar de um jaleco branco
- Ana Milena Rocha

- 23 de mai. de 2021
- 7 min de leitura
O despertador disparou às 6 da manhã e Ângela rapidamente o silenciou, mais um dia de trabalho à espera, quando ela se sentou em sua cama o ar matinal chegou aos seus pulmões inspirando e saiu vagarosamente quando expirou. O canto de pássaros sinalizou que tudo ainda é real, a pandemia continua e isso é um pesadelo. Mais um dia que irá ser mais cansativo que o usual dentre seus 26 anos de carreira como enfermeira.
Já completamente acordada, ela tomou um banho morno usando cada gota que caía do chuveiro para relaxar todas as tensões em seu corpo em apenas 5 minutos. Logo depois, vestiu sua roupa e caminha para a cozinha para preparar o seu café e de sua mãe já de idade. Toda sua família está dormindo no momento, Ângela costuma tentar preparar sua primeira refeição sem fazer barulho para não acabar acordando alguém cedo sem necessidade, ela opta pela rapidez também, não é nada prático fazer um banquete antes de ir para o PSM Balneário São José, seu local de trabalho, então escolheu fazer um chá de erva-doce. Colocou o saquinho na chaleira com água, posicionou a panelinha no fogão e se afastou para separar os medicamentos que a mãe precisa tomar daqui a poucos minutos, logo depois ela foi caminhando suavemente pela casa até o quarto de sua mãe.
6 horas e 15 minutos, consta as horas em seu celular, deve ter demorado uns minutos a mais quando trocava de roupa, mas não faz mal ainda está dentro do tempo.
- Mãe… mãe… - Ângela a chamou quase sussurrando. - Tá na hora de tomar seu remédio…
A senhora abriu os olhos devagar enquanto sua visão se focava na imagem de sua filha. Ângela ajudou a idosa de cabelos brancos como a neve a se levantar da cama.
- Bom dia - A voz familiar e embargada soou pelos ouvidos de Ângela.
As duas caminharam lado a lado à caminho da cozinha, quando chegaram ao cômodo a idosa se acomodou em um lugar da mesa enquanto Ângela pegou duas xícaras e serviu um pouco do chá para sua mãe anunciando o sabor preparado e depois colocou o líquido quente para si mesma, o canto dos pássaros continuava e se tornou a trilha sonora daquele momento.
6 horas e 28, após o breve café mãe e filha conversaram coisas banais de suas rotinas até Ângela finalmente medicar a senhora ainda sonolenta, apesar dos breves minutos de conversa.
- Já vai, minha filha?
- Logo mais, quer voltar a dormir? - Perguntou notando que sua mãe está bocejando.
- Quero. Por favor…
- Vou te levar pro quarto.
As duas caminharam de volta ao quarto onde a filha ajudou a mãe a se deitar na cama e cobriu a senhora com o cobertor.
- Bom trabalho - Desejou a mãe como de costume.
- Obrigada - Agradeceu acariciando a cabeça repleta de fios brancos.
Ângela se retirou do quarto para deixar sua mãe voltar adormecer. Sem pressa pegou suas chaves com uma mão e apoiou suas bolsas no ombro e seus passos a levaram para a porta abrindo caminho para o quintal onde está seu carro. Mas antes de colocar seus pés fora de casa, ela colocou sua máscara de cor branca.
Sua insegurança com o vírus aumentou depois que enfermeira contraiu a doença no ano passado. Aos 54 anos, ela sentiu medo de perder tudo que ela está deixando para trás nesse momento: mãe, marido e seus filhos. Hoje ela está saudável e imunizada, mas não deixa de pensar naqueles que não tiveram a mesma sorte.
São apenas 15 minutos de casa até o hospital em que a enfermeira trabalha, Ângela entrou em seu carro de cor prata no assento do motorista e ligou o veículo. Não costuma ouvir nada em especial no rádio, gosta de estar focada na estrada enquanto dirige.
As ruas por esse lado da cidade de São Paulo, mais especificamente em Parelheiros, são bem arborizadas e a sensação térmica nas manhãs por aqui costumam ser mais frias pelos ventos, mas Ângela já está acostumada e se preparou com um moletom não muito grosso da cor cinza. Ela estacionou no local, pegou suas coisas e quando desceu do veículo o ar gelado da manhã alcança suas bochechas deixando-as rosadas por debaixo de sua máscara. Ela tem até as 14 horas para ficar aqui caso não aconteça algum problema - ninguém deseja que isso seja necessário, pois Ângela gostaria de assistir um filme com a família quando voltasse para casa.
A enfermeira pegou o crachá onde sua foto junto com seu nome está gravado ÂNGELA TOMÉ ROCHA, posicionou-o no lado esquerdo de seu jaleco e caminhou para dentro do prédio. Hospitais sempre são movimentados, somado com uma crise sanitária o PSM Balneário São José ficou mais agitado no último ano, mas ninguém da equipe pode sequer cogitar entrar em pânico por mais que a situação pareça difícil.
Faz 20 anos que a profissional da saúde trabalha neste posto, mas apesar de sua cordialidade ao passar entre seus colegas falando “Bom dia!” e a disposição inspiradora em seu andar, ainda não é fácil lidar com tudo que aparece no hospital mesmo que o seu ofício peça isso todos os dias.
Ângela entra na sala pequena onde contém dois computadores, um armário, uma mesa onde a equipe prepara vacinas e contam os exames para o covid. Ela trabalha com notificação compulsória no setor de epidemiologia. Na prática esse nome um tanto longo significa que a enfermeira além de realizar serviços indo de vacinação até treinamento de novos profissionais, Ângela faz notificações de doenças transmissíveis como dengue, sarampo, HIV e, claro, Covid-19.
No período de 24 horas, são colhidos em média 50 exames de Covid-19. Alguns dão negativo, porém muitos dos resultados são positivos.
A enfermeira após se organizar no local, sentou atenta a tela de seu computador e começou passando alguns dados para o sistema, arquivando todas as informações possíveis sobre os pacientes das mais diversas causas e levou bons minutos nessa função. Os pacientes que testam positivo para a doença causada pelo coronavírus são encaminhados para o oxigênio, entubação ou até mesmo para sua casa de acordo com os sintomas apresentados, tudo sobre prescrição médica. Ângela ficou sozinha lembrando de alguns eventos que teve que presenciar nos últimos dias enquanto se levantava para preencher a notificação de pacientes presentes no local. Todas as paredes são pintadas com um tom esverdeado assim como vários postos da cidade de São Paulo, provavelmente pela esperança que ela transmite. Bom, é isso que essas pessoas precisam em momentos como este, inclusive a própria Ângela.
10 horas e 58 minutos, a cena que ocorreu ontem de manhã ainda matutava a sua cabeça, quando ela entrou no patamar para preencher uma notificação, um paciente ainda jovem pediu para enfermeira abrir seu oxigênio com um olhar desesperado, Ângela rapidamente verificou o oxigênio. Estava no máximo. Totalmente aberto.
Ângela acionou o médico para o paciente ser encaminhado com urgência para conseguir ser entubado. Ela não teve atualizações sobre o caso desde então. No dia seguinte ela ficaria sabendo que esse paciente, infelizmente, veio a óbito.
Morte é algo recorrente na pandemia na rotina de uma enfermeira, mas não torna algo fácil de lidar. Ângela se sente impotente diante da situação, é muito difícil comunicar um óbito para os familiares sendo 100% profissional quando o lado humano acaba se envolvendo. Ela sentia empatia pelas pessoas que acompanhavam os pacientes e mesmo em casos severos, a enfermeira buscava recuperar as forças dos pacientes e familiares.
- Enquanto tem vida tem esperança - Dizia Ângela não só para as pessoas ao seu redor do PSM Balneário São José, mas também para si mesmo, pois é frustrante para ela lidar com perdas mesmo fazendo o máximo para que isso não aconteça, é difícil se conformar.
O expediente é longo, cada minuto até às 14 horas parece uma eternidade, porém algumas pequenas alegrias fazem tudo isso valer a pena, um paciente que esteve internado por 15 dias por covid ganhou alta hoje. Ângela não viu a expressão do rosto do paciente, mas consegue imaginar o alívio e alegria estampado em seus olhos. Alívio esse que ela sentiu meses atrás. Cada vida salva e recuperada se transforma em combustível para a alma da enfermeira.
13 horas e 45 minutos, o dia foi tranquilo e sem nenhuma agitação fora do normal (dentro do possível durante esses meses de pandemia). Ângela tem um ótimo relacionamento com sua equipe, muitos dos novos enfermeiros têm uma admiração velada por ela, não só por ser uma ótima profissional, mas por ser muito humana com suas relações com os pacientes. Empatia nunca é sinal de fraqueza.
Naquele momento, ela estava em pé apoiada no portal da salinha conversando com alguns colegas sobre alguns casos que chamaram sua atenção nos últimos dias. Ela estava exausta e torcia para que nada dê errado e que pudesse finalizar seu turno dentro de alguns minutos. Mexia em seu celular e de vez em quando olhava para a parede verde clara na sua frente. Tic Tac Tic Tac. Mais dois casos para notificar surgiram: dengue e violência doméstica, é curioso pensar que outras coisas acontecem além do covid, mas as outras enfermidades e a crueldade humana ainda continuam implacáveis com o bem estar de várias pessoas. Ângela colocou os dados desses últimos pacientes com agilidade no sistema e levou alguns minutos nesse processo.
14 horas e 20 minutos, sem novos casos, Ângela decidiu encerrar seu turno oficialmente. Pegou suas coisas e fez o caminho reverso que realizou logo cedo. Agora com um sol tímido entre nuvens no lugar dos tons de azul escuro que pintavam o céu logo cedo. Ela caminhou até onde deixou seu carro estacionado e entrou no veículo, está cansada porém não vê a hora de ver sua família novamente. Novos tons e formas de verde enchem a visão dela, as árvores. Ela adora a sensação de tranquilidade que as paisagens trazem para seu peito e a ida para casa se torna ainda mais reconfortante.
Quando ela finalmente chegou em casa e tomou todos os cuidados necessários para evitar algum tipo de contaminação do coronavírus, ela viu alguns de seus animais de estimação espalhados pelo quintal aproveitando o suave calor do sol que está fazendo hoje. Entrando pela porta, Ângela observou membros de sua família espalhados pela casa, cada um com sua ocupação, porém à noite todos vão se reunir no sofá para assistir algum filme, isso deixa a esposa e mãe ansiosa. Roque, um de seus cachorros, se aproximou dela pulando e com o rabinho abanando. Finalmente se sentia em casa e imensamente feliz.
Comentários