A saudade do primeiro sentido
- Ana Carolina Tomé Rocha

- 23 de mai. de 2021
- 3 min de leitura
Quando somos bebês, o primeiro sentido que desenvolvemos é o tato, pois um dos primeiros contatos diretos com nossas mães fora do útero, se dá pela amamentação. Aquele momento pele a pele nos dá a sensação de conforto e acalento. É onde criamos nosso espaço seguro, sem precisar de esforço, e conforme vamos crescendo, as outras formas de contato físico vão gerando diversas sensações, como o abraço de um amigo, o apertar as mãos de um conhecido ou o primeiro beijo da pessoa amada. Seja positivo ou negativo, o contato físico é algo presente no cotidiano da sociedade.
Entretanto, estamos há um ano de quarentena devido ao covid-19 e não vemos mais amigos, entes queridos e colegas de trabalho com a frequência de antes. O abraço foi substituído pela videochamada, o beijinho no rosto de bom dia é agora uma mensagem nos apps de conversa, os shows onde se podiam aglomerar, pular e gritar, agora são feitos por lives. E eu me pergunto se conseguimos mensurar como a falta desse contato físico nos afeta.
Em nosso cérebro temos hormônios que são liberados de acordo com situações que vivenciamos e segundo a neurobiologia quando temos o contato direto com pessoas que nos são importantes, nosso nível de ocitocina e serotonina, considerados os hormônios da felicidade, se elevam e nos dão a sensação de conforto que buscamos. A falta dos hormônios pode causar sintomas como irritabilidade, mau humor, pensamentos negativos, ataques de raiva ou de choro.
Esse excesso de sintomas pode ocasionar transtornos psicológicos severos. Segundo um estudo feito e divulgado pela USP, em fevereiro de 2021, há um aumento nos casos de ansiedade (63%) e depressão (59%), comparado ao mesmo período de 2020. Muito disso se dá pela incerteza em relação ao período que estamos vivenciando. Estamos acostumados a descontar a frustração de diversas formas, mas com os protocolos de isolamento a movimentação é limitada.
Temos esse medo constante do desconhecido e imaginamos se caso descumprirmos as regras podemos nos contaminar ou levar a doença a um ente querido, contudo é sufocante não ter como correr. Li em uma matéria do El País que jovens europeus estavam se encontrando de máscara em lugares públicos somente para se abraçar e isso me fez questionar sobre como tomamos decisões impulsivas pelo simples fato de não suportar a distância.
Parceiros românticos buscam se encontrar uns com os outros por meio de aplicativos ou em locais consideravelmente seguros, mas além disso os familiares também rompem o isolamento para se ver ou comemorar datas importantes como natal, ano novo e aniversários. Para algumas pessoas isso não é uma problemática, pois elas não se culpam pelo ato. Em contrapartida temos pessoas que quase não saem e quando saem ficam se martirizando e se questionando se foi uma decisão correta, se aquele ato vai afetar não somente ela e sim outras diversas pessoas. Em um país com mais de 400 mil mortos, é um sentimento compreensível movido pela dor e empatia.
Entendo que os dois sentimentos são válidos, pois a mente humana é plural e o sentir é plural, cada um sente e compreende as situações a sua maneira. Porém, buscando novamente a ciência, podemos compreender um impacto maior em quem ainda sofre com a ausência do contato físico. Em entrevista à revista Wired, Tiffany Field, fundadora do Instituto de Pesquisa do Toque da Universidade de Miami, conta que em uma de suas pesquisas 26% dos indivíduos afirmam que a quarentena fez com que sentissem muita falta de contato, enquanto 16% sentem uma falta moderada. No entanto, 97% relatam problemas para dormir.
Devido ao constante período de distanciamento temos o aumento de sentimentos como saudade, ansiedade, nervosismo e essas diversas sensações que não são fáceis de lidar, e como o contato físico poderia aplacar um pouco dessas sensações, é normal sentir tanto a sua falta. Entretanto, temos que procurar ajuda de amigos, parentes, psicólogos ou profissionais de saúde para que não percamos a esperança. O futuro nos reserva muitas surpresas pela frente, não é fácil lidar com tudo sozinho, porém temos que entender que não estamos mesmo isolados, é esse sentimento de união e esperança pela melhora, que ajuda a manter a sanidade nos dias mais difíceis.
Comentários