Pasta & Vino - o restaurante italiano de histórias paulistas
- Larissa Kimberly

- 23 de mai. de 2021
- 4 min de leitura
O chef de cozinha José Trombetti e sua herança culinária, entre diversos pontos gastronômicos em São Paulo
José Antônio Garcia Trombetti, paulista, 64 anos. É pai de gêmeos, Arthur e Fernanda e sua paixão e ocupação profissional é ser chefe de cozinha. De família italiana, suas origens culinárias vêm desde o seu avô.
Em 1927, o avô voltou da Itália e viu por lá cantinas pequenas que vendiam comida pronta para as pessoas levarem para casa, o que não era muito comum no Brasil. Neste mesmo ano, abriu seu primeiro restaurante na cidade de São Paulo.
Lembra com orgulho quando o pai abriu uma rotisseria na rua Augusta, foi uma das primeiras de São Paulo, quiçá do Brasil. Seus primeiros trocados foram por lá, ficava atrás do balcão, esperando as pessoas fazerem o pedido, anotava, corria para a cozinha para entregar ao chef e depois trazia os pratos prontos para a mesa dos clientes.
Como as famosas quentinhas não existiam, não havia embalagens para colocar a comida, então seu pai cobrava por pirex de vidro, mas muitas pessoas não traziam de volta. Até que um dia, seu pai, andando pela cidade com um amigo, entrou em uma tinturaria de chapéus, o que era comum naquela época, e esse homem inventou a tal quentinha, patenteou e quis chamar o pai de Zé para ser sócio, mas ele recusou… Uma história que a família se arrepende por ter recusado a proposta de uma ideia que deu muito certo até os dias atuais.
Em 1985, a família abriu o restaurante Pasta & Vino, o comércio foi aberto em um dos maiores pontos da cidade, na rua da Consolação, era uma garagem bem pequena e lá dentro tinha uma mini cozinha, banheiro, área de venda e as mesas eram postas na calçada.
Inclusive foram os pioneiros ao colocar as mesas na calçada, e muitas pessoas tinham vergonha de comer dessa maneira, por não ser habitual. José e o irmão Pedro, como estratégia para atrair freguesia, fingiam que estavam comendo nas mesas só para as pessoas perderem a timidez e frequentarem o local. Inicialmente eram apenas 4 mesinhas para fora para atender os clientes. E quando deixaram o restaurante, já eram 20 mesas na calçada. Então foram para outra localização, na rua Barão de Capanema, que se tornou o point dos pratos à la carte a qualquer horário e em qualquer dia da semana.
Na mesma semana da inauguração, foi assaltado. E por mais que tenha sido uma situação triste, José lembra-se rindo que quebraram os vidros e a grade de proteção do restaurante, assim chamaram o serralheiro para o conserto que caiu da escada e quebrou a perna. Por consequência disso, José tinha de ficar de plantão nas noites, junto a um garçom, para ninguém vir roubar mais uma vez seu comércio.
Aos poucos, as pessoas foram tomando gosto pela comida e atendimento, não paravam de chegar pedidos até mesmo na madrugada, assim o restaurante se tornou 24 horas, com 130 funcionários e as mesas postas para fora se tornaram 250 lugares.
De tão famoso e querido que o restaurante se tornou, quando não tinha mais lugar por lá, havia o restaurante do Suplicy, chamado Supremo, ao lado do Pasta & Vino, que as pessoas sentavam e pediam para entregar a comida do restaurante do José. Dentre outras histórias engraçadas, José conta quando Jânio Quadros proibiu as mesas na calçada das ruas. Então quando tinha blitz que iam recolher essas mesas, alguns clientes que viraram amigos e trabalhavam em subprefeituras, ligavam para Zé e o avisavam. Tudo era colocado depressa em porta malas de carros, e o pessoal comia em pé, com o prato na mão, conversando e dando risada. Passando as kombis de blitz da prefeitura, abria-se o porta mala, todos sentavam novamente e eles riam de tudo aquilo. Outra época, outros tempos.
Também lembra que pessoas influentes em teatro, televisão e jornalismo sempre passavam por lá, como Tato Gabus Mendes. Ele tinha um barzinho bem movimentado atrás do shopping Ibirapuera, chamado Budega. E sempre ia lá no Pasta & Vino com o faturamento do seu bar, um saco cheio de dinheiro, pois era muito pouco cartão que se usava. José guardava o dinheiro no freezer. Um dia, Tato chegou bêbado em seu restaurante, desesperado, dizendo que não sabia onde estava o saco de dinheiro do faturamento dele, que tinha sido assaltado. Sendo que Zé tinha congelado seu dinheiro. Uma situação cômica.
O Pasta & Vino deixou um legado de enredos, confusões, perrengues e alegrias de um restaurante familiar que fez amizades e muitas histórias para contar. Encerrou as atividades em 2010 por conta do aluguel muito caro, obrigando até mesmo o oficial de justiça expulsá-los do local.
A partir daí, José foi auxiliar sua sobrinha em outro restaurante em Itu - São Paulo e ficou por lá até 2 meses atrás. Devido a pandemia que perdura por mais de 1 ano no país, José se sente receoso em abrir outra vez a restaurante, por mais que sinta saudade da correria, mas ainda tem a ideia de montar uma boa equipe e abrir um delivery de pratos congelados.
Cozinhar é um ato que está em seu sangue e José agradece a todo tempo pelo auxílio do pai e do irmão na sua carreira e na vida. Para ele, é mais que um trabalho, é o que ama fazer. Hoje em dia, José é aposentado e recorda sempre com boas lembranças de tudo que viveu no Pasta & Vino.
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