Uma escolha muito difícil?
- Ana Milena Rocha

- 23 de mai. de 2021
- 4 min de leitura
As notícias que ouvi no telejornal matinal continuam ecoando em minha mente, as desagradáveis tomam mais espaço principalmente no âmbito político. Logo as eleições se aproximam e a sensação de insegurança também. Estou no ônibus a caminho do mercado com minha mãe, os dias de promoções são imperdíveis, é quase uma questão estratégica: o melhor horário, por qual setor começar e, claro, quanto mais braços maior é a quantidade de produtos que levamos para casa.
Há semanas que não venho ao mercado, a pandemia não ajuda, mas hoje irei tentar fazer o meu melhor para escolher os melhores itens. Minha mãe e eu temos uma tática para agilizar o processo, combinamos de nos separamos e cada uma fica encarregada de pegar algo, hoje estou encarregada do alho.
Sob as máscaras, combinamos o ponto de encontro com o carrinho e partimos. Me aproximo da banca onde fica o alho, o meu tempero favorito, não consigo imaginar meus pratos favoritos sem ele. E acredito que não seja só comigo, pois sempre tem um certo movimento por aqui, são vários perfis e muitas vezes as pessoas reunidas ao redor da banquinha sequer se conhecem, mas se o preço estiver diferente do usual, como é o caso de hoje, o tão desconfortável tópico que me atormenta aparece.
Nossa! O alho tá caro e feio, né? - Diz uma senhora de cabelos grisalhos.
É, mas a gente fica sem opção em outro mercado tava mais caro ainda! - Retruca uma outra baixinha gesticulando cada palavra.
Tudo tá caro, só da gente tá vivo é caro. Todo ano a gente vota e nada muda. - Responde a primeira senhora em tom de indignação.
É verdade, nem esquento minha cabeça mais com isso, só voto em branco. - Um homem alto entra na conversa com convicção.
Eu também! - A baixinha apoia.
É… Não tá fácil! - Finaliza a mulher de cabelos grisalhos com o olhar distante.
E com a mesma facilidade que o assunto surge entre aquelas pessoas ele se dispersa quando cada um pega sua sacola cheia de alhos e cada um volta para o carrinho. Todos voltam a ser estranhos.
Sou do tipo que demora mais escolhendo minhas cabeças de alhos, enquanto examino um por um, meus pensamentos começam a vagar sobre tudo que escutei. Penso em abrir meu Twitter e perguntar o que meus seguidores acham sobre o voto em branco, mas não o faço porque primeiramente eu ficaria no vácuo, mas suponhamos que houvesse uma resposta seria: Votar em branco significa que pessoa está compactuando com quem está ganhando, e a pessoa se abstém de sua função como cidadão. Eu concordo, mas sou jovem assim como minha “timeline”. É como se fosse meu papel pensar positivo, se indignar e bolar oposições contra algum governo no qual não concordo enquanto faço a feira com a minha mãe, mas será que um dia todos não fomos assim?
Consigo imaginar aquela senhora em sua juventude com uma concepção diferente do que é de hoje. Não como uma baita militante no campo político, mas alguém com esperança de dias melhores e que aquilo iria afetar positivamente em sua vida, o que pode ter acontecido? O contexto pode ser diverso, mas pode ser resumido em decepções. E pior, essas decepções resultaram em um desânimo. A política passa a ser um vilão. Ah, a vida seria tão melhor sem ela, não é? Sem ouvir notícias desastrosas sobre comportamento de um representante, sem roubo, sem injustiças… Um sonho que ficou por isso mesmo, um delírio que jamais irá acontecer.
Creio que enquanto penso nisso tudo peguei uma boa quantia de alho, espero que dê para usar tudo por boas semanas. Amarro a sacola segurando o fundo com a insegurança que o fundo se rasgue com o peso e me dirijo até o carrinho driblando a multidão. É cansativo vir ao mercado, mas é muito bom comer bons pratos com o que levamos para casa. Eu demoro muito escolhendo cada item, mas tento ter certeza que estou levando algo que todos em minha casa vão apreciar, as pessoas às vezes escolhem suas coisas tão rápido que parece que nem se dão conta daquilo que estão pagando.
Enquanto aguardo minha mãe apoiada no carrinho, observo ao meu redor e vejo um homem de seus trinta e tantos está pegando batatas descontroladamente que nem notou que pegou uma que tem uma coloração mais escura em uma das extremidades do tubérculo, será que ele vai se dar conta do erro só quando chegar em casa? Tentar trocar o produto depois? Iria se arrepender de não ter se dedicado mais atenção à batata? Bom, ele pode também fingir que ela estava em excelentes condições e comê-la mesmo assim, afinal ele escolheu.
E, percebo que muitas vezes as pessoas escolhem seus representantes como esse homem, de modo avexado e sem atenção se aquilo é realmente o ideal para si. Trágico. Mas quem sou eu para julgar? Vai ver ele tem algum compromisso depois ou algo mais importante.
Olho ao redor e paro meu olhar sob meu carrinho, apenas um saco cheio de alhos. Boas cabeças de alhos por sinal. Tantos carrinhos cheios, mas não trocaria nada disso, pois fiz minha seleção com cautela e gosto de ter minha autonomia. Entretanto, acho que muitas pessoas fazem suas escolhas como se estivessem fazendo compras: sem cuidado e de maneira apressada para que tudo termine logo, mas não é bem assim, alguém sempre irá sentir o sabor amargo de suas escolhas ruins. Por que eu escolheria algo de qualidade duvidosa para almoçar quando tenho a oportunidade de escolher bons ingredientes?
Após uma longa espera, minha mãe se aproximou do carrinho com dois saquinhos com poucas frutas, “não estavam bons” ela me avisou com o olhar decepcionado, e fomos para outra seção do mercado para finalizar as compras. Enfrentamos fila e demora para esperar o ônibus, mas chegamos em casa cansadas e satisfeitas.
Cuidamos juntas para os preparativos para o almoço, perdemos um longo tempo no mercado, minha mãe me chama para elogiar as cabeças de alho enquanto vai cortando um dente para fazer o feijão ao mesmo tempo que vou guardando os tomates na geladeira, meu peito se enche de orgulho e naquele momento sinto que cada minuto que levei nessa tarefa valeu a pena.
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