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O instinto de ouvir sua gente

  • Foto do escritor: Ana Carolina Tomé Rocha
    Ana Carolina Tomé Rocha
  • 23 de mai. de 2021
  • 6 min de leitura

Atualizado: 24 de mai. de 2021

Brasília, 10 de novembro de 2016, votação na Câmara de Deputados sobre a aprovação do texto inicial da PEC 55, que visava cortar e congelar as despesas do Governo Federal, com cifras corrigidas pela inflação, por até 20 anos. Dentro desses setores os mais afetados são a saúde e a educação. Nesse dia e local, um grupo de estudantes oriundos de São Paulo tentam entrar na câmara para protestar contra a aprovação e dentre esses jovens se encontra Keila Pereira, mas vamos voltar um pouco antes na sua história para entender o motivo de sua motivação para lutar e protestar na política.


Keila nasceu na capital de São Paulo, mais especificamente no extremo sul da cidade, no bairro de Parelheiros. O local é conhecido por ser um polo ecoturístico da cidade, formado pelas áreas de preservação ambiental Capivari-Monos e Bororé-Colônia e 4 parques naturais (Itaim, Jaceguava, Varginha e Bororé), fugindo do desmatamento comum da metrópole. Porém nem toda beleza do lugar consegue esconder as dificuldades vividas por quem mora na região, e Keila conhece de perto essa situação.


Sua mãe, Marlene Pereira, veio do interior da Bahia e seu pai, Roberto Lourenço, do interior do Paraná. O encontro dos dois, em São Paulo, gera o comércio e a família construída aqui. Com a criação do restaurante da Marlene, é através desse espaço que os sete filhos do casal foram criados, mas o local também serviu para que Keila tivesse o primeiro contato com os políticos e candidatos da região. Com mais de 30 anos de comércio a dona Marlene, mãe da Keila, ficou conhecida na região por ajudar projetos culturais e sociais do bairro, além de ceder o salão do restaurante para comícios e reuniões dos candidatos de tempos em tempos, e através desse primeiro contato que inicia a jornada na política de Keila.


No decorrer de sua vida, foi ficando cada vez mais claro como a região onde nasceu é uma parte importante de sua construção como pessoa. Em um relato ela conta que quando tinha 9 anos, em uma festa da região perto da praça central, havia uma maquete em relevo do bairro. Sua admiração pela obra era tanta que ela começou a apresentar para quem passava na frente sobre o que era a maquete, quais os pontos turísticos e em que ponto da maquete as pessoas estavam localizadas. Através desse gesto é possível sentir como o amor puro de uma criança por seu local de nascimento pode se tornar gigante.


O sentimento de mudança continuou em 2013 quando estava no ensino médio, Keila ajudava no projeto Circoler, que trocava livros em prol de incentivar o hábito de leitura nos jovens da região. No mesmo ano ela tentou montar alguns saraus na região, porém não vingou devido a quantidade de trabalho envolvida para montar o projeto, o bairro também não tinha uma casa de cultura ou apoio da prefeitura, dificultando ainda mais as formas de manter a ideia. Entretanto, em 2015, ela resolveu retomar a proposta com o sarau da praça e, em 2016, o projeto se tornou o Sarauê. O projeto foi contemplado pelo Programa para a Valorização de Iniciativas Culturais (VAI), que apoia financeiramente coletivos culturais da cidade de São Paulo, principalmente de regiões com precariedade de recursos e equipamentos culturais.


Para Keila, esse período também foi marcado pelo seu ingresso na Etec Takashi Morita, localizada no bairro de Santo Amaro. Ela entrou no segundo ano do ensino médio. Ela conta que o começo foi bem complicado devido a sua defasagem de aprendizado na escola anterior, pois seu primeiro ano foi marcado por falta de professores, de materiais e muitas aulas vagas. Após passar por um período de adaptação, ela começou a se envolver com os projetos sociais da própria escola, como o leituraria, para troca de livros no pátio e sua participação no grêmio estudantil.


Através dessa atuação ela conheceu a União Municipal dos Estudantes Secundaristas de São Paulo (UMES-SP). Dentro da organização ela passou a ser cada vez mais ativa a ponto de ser eleita diretora de cultura de 2016 a 2018, encabeçando projetos de capoeira, teatro, cinema, saraus e exposições. Estar presente nas ocupações das escolas em São Paulo, em manifestações pela educação e congressos por direitos dos menos favorecidos formaram sua bagagem.


Todos esses momentos culminam em sua ida a Brasília em 2016, Keila conta que foram dois ônibus com diversos estudantes saindo de São Paulo para protestar no congresso, porém no dia da votação, o ex-presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia declarou que a reunião seria fechada ao público. Todavia isso não impediu que os estudantes arranjassem um jeito de entrar, ela conta que eles fingiram estar com a equipe de assessores de imprensa de alguns deputados para garantir sua entrada. Infelizmente mesmo com toda a movimentação e protesto a PEC foi aprovada, mas isso não desanimou seu espírito de luta.


Em 2018, através do convite do presidente do partido Pátria Livre no qual Keila era filiada desde 2015, ela sai em sua primeira candidatura para o cargo de deputada federal. O momento também serviu como uma forma dela se reconectar com Parelheiros, pois durante sua gestão na UMES grande parte da sua atividade era centralizada no Bixiga que é o bairro onde se localiza a sede da organização. Em média seu tempo de deslocamento no transporte público era de 2h30 de ida e o mesmo na volta, somado ao gasto de planejamento e aplicação dos projetos, era bem complicado estar ativa em sua comunidade local.


Poucas pessoas conhecem tão de perto o processo de uma campanha eleitoral. Normalmente só vamos votar e depois esquecemos do que precisa ser cobrado, do que foi prometido antes, ou como aquele candidato ou candidata se tornou famoso e conhecido. Mas, para Keila, foi através de toda sua expertise adquirida por suas vivências desde a infância que ela trilhou sua primeira campanha, mesmo sendo parte de um partido de esquerda, em um momento de ascensão da direita devido a campanha nacional de Bolsonaro e estadual do PSDB, isso não desanimou sua vontade por mudanças, porém mesmo com esse sentimento forte, devido a ser de um partido pequeno, com pouca verba e divulgação, ela não foi eleita


No entanto, Keila não vê a situação como uma derrota e sim como uma experiência que lhe abriu outras oportunidades, ela sabia de suas defasagens e dificuldades e por isso decidiu continuar lutando. Em 2020, foi lançada sua segunda candidatura, desta vez para vereadora de São Paulo pelo partido PCdoB. Com mais recursos e uma equipe maior, ela conta que essa campanha foi mais elaborada e centrada em seus principais objetivos, defender a educação e cultura do lugar de onde vive. Ela também fala sobre o medo por conta do coronavírus, já que a campanhas de porta em porta e grandes comícios cheios de pessoas, que são comuns em época de eleições, tiveram que se adaptar às normas e regulamentações de segurança. Ninguém de sua equipe foi contaminado, mas ela acredita que foi uma tomada de decisão bem difícil ir às ruas e correr esse risco.


Novamente ela não foi eleita, todavia isso não a desestimula, pois sabemos como é complicado ser uma jovem independente e não ter um apoio financeiro vasto e ainda sim ir contra o sistema. Grande parte das campanhas hoje no Brasil são feitas a base de dinheiro e influência, ela relata que na campanha do vereador Milton Leite, tiveram em torno de 500 empregados como ajudantes e divulgadores nos bairros de Campo Limpo, Parelheiros e Capela do Socorro, as regiões da zona sul onde ele tem sua base, com salários entre R$ 800 e R$ 2,2 mil. O vereador declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) receita de R$ 2,4 milhões, dos quais R$ 1,9 milhão são do fundo eleitoral. Logo vemos novamente os empecilhos para quebrar esse ciclo do sistema.


Para Keila, a solução a fim de melhorar o sistema é termos mais pessoas dentro do congresso que sejam alinhadas com a luta pelos direitos básicos da população, pessoas que não votam em PECs ou leis que visam minar o que já foi conquistado. Em seu período de campanha, ela teve contato com diversos tipos de pessoas que moram em casas de taipas com um único cômodo, pessoas que não tem acesso a internet ou saneamento básico, pessoas que sofrem com o descaso do sistema de educação, saúde e transporte, mas que mesmo assim trabalham, estudam e se movimentam pelo que é justo.


Hoje com 24 anos e cursando Letras na USP, ela sabe que o futuro ainda reserva diversos desafios, contudo sua luta não para. Na entrevista ela cita Plínio Marcos quando diz que se identifica com a seguinte frase do dramaturgo: "Se algum talento eu tenho, porventura, é o de ver e ouvir a gente minha". E é por essa inspiração que ela decidiu mudar o sistema e galgar uma carreira política, pelo instinto de modificação, por crer e ter vontade de batalhar.


Nas redes sociais é encontrada como @keilapereira___ no instagram, engajando projetos sociais como crowdfunding no site benfeitoria APOIE O RESTAURANTE DA MARLENE ou presencialmente assim que a pandemia passar. É em pessoas como ela que nos é prometido o futuro, já que a liderança não se ganha, ela se conquista com garra e determinação, coisa que não falta em Keila Pereira.


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