Pele negra é esquecida nas marcas de maquiagem
- Henrique Efigênio

- 22 de mai. de 2021
- 6 min de leitura
Atualizado: 24 de mai. de 2021
A reivindicação de tonalidades negras nos catálogos de maquiagem feita pelos consumidores, nos últimos tempos, foi o suficiente para as marcas adicionarem pigmento aos produtos?
A jovem Maria Fernanda não sabe muito de maquiagem. Não conhece quais são os melhores tutoriais ou especialistas sobre o assunto. Contudo, ela sente na pele, que ser maioria da população brasileira não faz com que ela seja preferência no mercado de cosméticos.
Antes de colocar o produto no rosto é preciso escolher um que seja ideal ao seu tom de pele. E isso nem sempre é uma tarefa fácil. Caso a pessoa seja negra, a procura pode ser ainda mais complicada. A maquiagem que surgiu no Egito Antigo, por volta de 3000 antes de Cristo, esbarra em 2020 com marcas que não atendem e nem estudam as especificidades da pele.
As experiências com a indústria cosmética não são as mais satisfatórias. Em um mundo que desvaloriza a diversidade, encontrar produtos nacionais e importados específicos para pele mais escura é quase uma missão impossível. “Base já usei marcas importadas e entre todas as cores eu nunca achei uma que combinasse perfeitamente com o meu tom de pele”, declara Maria Fernanda.
Para a jornalista e consumidora de maquiagem Gabriela Santos, existe uma grande questão na hora de achar o produto ideal para ela. Ao provar diferentes bases de uma marca, ela descobriu que os subtons não se adequavam ao seu tipo de pele. “Tinha uma formulação muito rosada para peles negras e não abrangia os subtons como o amarelado e o neutro. Por eu ter uma pele com fundo amarelo, sempre tive dificuldade para achar minha base ideal”, relata ela.
Não é apenas o tom que desagrada. É muito importante avaliar o subtom da pele, tonalidade do fundo que fica sob a derme, e varia entre frio, neutro, quente ou oliva. “Meu tom de pele é mais amarelo. As [bases das] marcas tendem a ser mais para o rosado ou para o laranja. Se é da minha cor, o subtom fica mais para alaranjado. Ou senão, fica muito escuro”, acrescenta Gabriela. E esse sentimento não é um caso isolado.
A segmentação do mercado tem um impacto negativo numa parcela da população que sempre sofreu com a invisibilidade. A subcategorização faz com que o público não se encontre nas três opções oferecidas: claro, médio e escuro.
As ausências na base
Antes da base chegar nas necessaires existe um caminho longo a ser percorrido. O desenvolvimento dos produtos permeia a escolha de textura, acabamento e tonalidades. O princípio de tudo são os pigmentos. São eles que dão a cor do cosmético. Entretanto, mesmo que todas as maquiagens necessitem do componente, a sua origem é variável. Pode ser natural ou sintético. Os encontrados na natureza podem ser de origem vegetal, mineral ou animal.
“Existe um problema das peles negras não terem sido submetidas a estudos acadêmicos. A academia traz pesquisa e conhecimento. E não apenas na parte técnica e química, mas também na parte social. É muito novo estudarmos sobre isso. [Hoje] não é algo científico e, sim, especulação”, avalia a desenvolvedora de produtos Daniele Da Mata.
A falta de pessoas negras durante a produção faz com que o processo em cadeia prejudique a percepção do produto final pelo consumidor. A avaliação é feita por uma pessoa branca sobre a perspetiva de vivências de outra. “Eu sinto falta de acadêmicos ou cientistas que estudam peles negras, mas que sejam também pessoas negras. Não apenas pela questão da representatividade, mas também pelo interesse”, acrescenta Da Mata.
O desenvolvimento da maquiagem para peles mais escuras tem que levar em conta um aspecto essencial: a melanina. O entendimento do pigmento natural influencia no subtom de cada pessoa. “Quando fazemos a base imitamos as cores da pele, as tonalidades e as variações da melanina. As pessoas sabem que cores primárias misturadas viram marrons, só que a questão é a concentração desses produtos que fazem as variações de subtons e tons.”, explica Da Mata, que também trabalha como professora e maquiadora, visualizando a prática do uso dos cosméticos.
E o processo de produção não para por aí. “Falamos de matéria-prima e produto, mas se formos para uma outra área que é venda, consumidor final, essa parte que também falta tecnologia de estudo, pesquisa. Quem são as pessoas que estão pesquisando consumo de pessoas negras? Estão pesquisando em Curitiba ou em Salvador? Precisamos ter um entendimento da população brasileira”, acrescenta a maquiadora.
À sombra do mercado
A indústria de cosméticos brasileira exclui pessoas de pele negra. Esse fracionamento do mercado impacta negativamente uma parcela da população que sempre sofreu com a invisibilidade. No entanto, essa mesma parcela é ávida pelo mercado de beleza. Mesmo que as marcas apresentem uma pouca variedade para as peles negras.
De acordo com a pesquisa A Voz e a Vez – Diversidade no Mercado de Consumo e Empreendedorismo, do Instituto Feira Preta realizada pelo Instituto Locomotiva, a população negra movimenta R$ 1,7 trilhão ao ano no Brasil. Esse número reflete um poder de compra gigantesco. É como se os consumidores negros formassem um país e ele seria o 11º país do mundo em número de habitantes, com 114,8 milhões de pessoas, e 17º em consumo.
Contudo, o mercado ainda continua negligente com a população negra. Apenas na última década houve uma movimentação para mudanças no cenário. As marcas entenderam que a população negra consome sim - e muito. Só que para os especialistas, os avanços são frutos de reivindicações da sociedade e da exposição de modelos, atrizes e ativistas negras em programas de TV, protagonizando tramas em novelas e campanhas publicitárias - e não por voltaram aos olhos para mais da metade (53,6%) da população brasileira ser formada por negros e pardos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
A especialista em maquiagem e escritora do livro ‘Maquiagem para Pele Negra’, Carol Romero entendeu que houve uma imposição dos consumidores: “A indústria se sentiu pressionada, a ter que começar a atender esse público. Se nós não tivéssemos falado nada talvez não tivesse maquiagem para pele negra nunca”, ressalta ela.
Com a oferta de tons de marcas internacionais como Fenty Beauty, com mais de 40 tonalidades e ColourPop, com 42, DaMata confessa: “É quase como se fosse uma realidade paralela: ‘agora nós podemos entrar aqui’”.
Mas mesmo assim, tonalidades para peles retintas são ofertas pequenas. “Por herança da colonização do país, as pessoas negras de pele retinta não são vistas como consumidores no mercado. Então, justamente, por isso as marcas não se preocupam em criar produtos direcionados para pessoas negras de pele retinta, porque eles acreditam que nem serão vendidos”, comenta Romero. E a dificuldade ao traduzir essa disponibilidade para o Brasil é ainda maior: “Temos uma herança mestiça, de diferentes tonalidades de peles negras: peles negras claras, médias, retintas, vermelhas, frias, amarelas. Tudo isso cria uma maior dificuldade para uma marca brasileira conseguir atender peles negras aqui no Brasil”, analisa Damata.
O debate sobre as possibilidades do uso da maquiagem nas peles escuras e retintas é avaliado a partir de uma análise socioeconômica equivocada da população negra. Além de considerar as particularidades estéticas, o mercado não reconhece a potência consumidora da comunidade negra e suas experiências negativas com os produtos na pele. “Até uns sete anos atrás, mulheres e meninas negras usavam maquiagem que deixavam seus rostos esbranquiçados porque o mercado não entendia essa demanda. O tom que encontramos na embalagem dificilmente será o acabamento em minha pele”, explica Gabriela.
A insatisfação com os símbolos da estética, oriundos, como foi apontado pelos especialistas, de uma não especialização e a carência de estudos próprios de cosméticos para a pele negra, pode fazer com que a comunidade continue afastada por acreditar que apenas pessoas de pele clara podem acessá-los. “A gente continua com aquele mito da inferioridade da pessoa negra e muitas vezes a pessoa não usa uma base, ou não usa determinado produto, por achar que não tem para pele negra ou por não saber que existe para a para pele negra. Isso continua destruindo a autoestima das pessoas negras”, manifesta Carol Romero.
A reivindicação dos espaços continuam e cabe agora aos novos rostos tomarem suas narrativas com poder para enfrentar o estigma e a exclusão sutil e naturalizada. DaMata conta que assumiu essa história e pegou essa responsabilidade para si: falar sobre estética negra e participar da construção do cenário. E finaliza: “Eu sinto como se fosse um bastão que a Maria do Carmo, dona da primeira marca brasileira de maquiagem exclusiva de pele negra, passou para a gente. Essa responsabilidade me coloca como agente responsável pelo que eu falo, do que eu dissemino e por aquilo que eu desenvolvo”.
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