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O advento da escassez digital

  • Foto do escritor: Guilherme Pina Souza
    Guilherme Pina Souza
  • 23 de mai. de 2021
  • 3 min de leitura

A venda de certificados para obras digitais ultrapassa a casa dos milhões e compete diretamente com o luxuoso mercado de arte tradicional


Como as casas de leilão foram fechadas por causa da pandemia do covid-19, uma atividade quase que exclusiva dos mais ricos da sociedade se voltou para a internet, que já não é a um bom tempo um ambiente desconhecido para esse meio, com galerias online como o artsy e o artfinder que estão a bastante tempo estabelecidas no mercado de arte. Junto a isso, a alguns anos, as criptomoedas, como a bitcoin, vem tendo altas surpreendentes, se valorizando a cada dia. E é juntando estes dois mundos que o conceito de arte NFT surgiu, unindo o mundo da compra e venda de arte, com o crescente universo das criptomoedas.


Um dos principais pontos que fazem uma arte ter ‘’valor’’ é a escassez, se existe um número limitado de exemplares originais, o valor tende a ser maior, como é tido na lei da oferta e da demanda. A de se pensar no conceito de ‘’aura’’ proposto por Walter Benjamin que afirma a existência da ‘’autenticidade’’ de uma obra única, que não pode ser reproduzida, trazendo o conceito religioso da ‘’aura’’, ou seja, algo a ser cultuado. Já a muito tempo, certos artistas transformaram uma obra facilmente reprodutível em uma peça limitada. Isso se tornou uma prática comum na fotografia, onde fotógrafos reproduziam poucas réplicas de um dos seus trabalhos e as vendiam com a promessa que nenhuma outra reprodução seria feita através do material original. Entretanto, é bem difícil de se pensar em como um trabalho feito por meios digitais pode ser escasso, e isso estava longe da realidade até alguns meses atrás, até a introdução das criptomoedas e do NFT.


Os NFT são um certificado de autenticidade sobre algum tipo de arquivo digital, seja em imagem ou em vídeo, podendo ser gerado apenas uma vez para cada arquivo. Por isso, dentro deste meio, não só peças de artes convencionais como um desenho ou uma pintura são vendidos, mas também modelos 3D e até vídeos, como uma jogada famosa da NBA ou um clipe de música de um artista popular.


O caso mais popular relacionado a venda de arte NFT foi uma peça feita por Mike Winkelmann ou Beeple Crap, como é conhecido nas redes sociais. O artista vendeu, uma junção de 5 mil artes feitas diariamente desde 1 de maio de 2007 no seu projeto pessoal chamado ‘’Everydays’’, ainda em andamento. No dia 12 de março de 2021 seu trabalho foi vendido por 69 milhões de dólares, tornando-se a quarta obra de arte mais cara vendida por um artista vivo, trazendo muitos olhos para esse novo mercado.

Existem diversas críticas sobre esse universo das NFT, um dos mais alarmantes se dá pelo teórico uso excessivo de energia que a operação de criptomoedas gera, a questão é que, em comparação, o dinheiro impresso e até mesmo o funcionamento de bancos geram danos ao meio ambiente, porém existem algumas criptomoedas que tentam promover um uso menor de energia. Existe também, a óbvia colocação de que o comprador não está comprando nada de fato, pois mesmo com um certificado, um produto que só existe no mundo digital não realmente possui um ‘’original’’. Entretanto, vale ressaltar que apesar de terem transações exorbitantes como a do caso de Beeple Crap, o comércio de Arte NFT é muito mais democrático do que o mercado de arte convencional, com qualquer um com uma boa obra possa vendê-la, além de por isso ter volatilidade de preços muito mais, tendo obras a preços consideravelmente acessíveis, também podendo ter um uso comercial das obras adquiridas. Logo, os NFTs são um meio interessante para tanto criar uma vertente acessível dentro do mercado artístico, quanto para o suporte e valorização dos artistas digitais e produtores de conteúdo em geral.


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