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O trabalho dignifica?

  • Foto do escritor: Henrique Efigênio
    Henrique Efigênio
  • 23 de mai. de 2021
  • 3 min de leitura

Quando o mercado de trabalho formal pode ser uma maneira de trazer dignidade para quem está à margem das oportunidades


Ter sua humanidade reconhecida é um desafio para aqueles que são empurrados para a margem da sociedade. Travestis e transexuais são alçados à categoria de sub-humanos muito cedo, a idade média na qual são expulsos de casa, de acordo com a Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), é de 13 anos. No entanto, esse é só o começo de uma jornada na qual sua identidade não é respeitada e seu corpo passa a ser uma ferramenta.


Os últimos anos trouxeram garantias legais como: o direito à retificação do nome e o acesso a banheiros e vestiários de acordo com o gênero . O fato desses recursos básicos só serem oficializados pela lei nos últimos anos, não só escancara o descaso do Estado com essas pessoas, mas também demonstra um desinteresse social de elucidar as necessidades da minoria.


A marginalização dos corpos transgêneros se dá de forma a afastá-los de qualquer degrau que os eleve na escada da hierarquia social. Mas se as vozes escapam das barreiras da estrutura, que impedem de visibilizar seu discurso, são silenciadas com a violência. O Brasil é o país que mais registra mortes de transgêneros no mundo, a constatação é da ONG Transgender Europe, que monitora 71 países. O ANTRA, por sua vez, atesta que em 77% dessas mortes, apresentam crueldade e brutalidade extrema.


Nossa nação também é detentora de outra recorde: o de país que mais acessa pornografia transexual (no Redtube e no Pornhub, os maiores sites de vídeos eróticos do mundo). Em um relatório disponibilizado em 2017 pelo Pornhub, naquele ano, o interesse do Brasil por essa categoria foi 84% maior que no restante do mundo.


Essa dicotomia, entre ímpeto assassino e interesse sexual, cria um estigma que perpetua a ideia de objeto sexual inapto para relações afetivas e ainda estabelece um local único como possibilidade de subsistência para esse grupo: a prostituição. A justificativa para esse cenário é não outra, além de uma opressão sistêmica que determina que a partir do momento em que o ser não se identifica com seu gênero, ele pertence à base da pirâmide social.


Essa constatação é atestada pelo mercado e pelas instituições, que não abrem oportunidades para essas pessoas — nem em cargos subalternos e muito menos nos de liderança. Se nas sociedades capitalistas o dinheiro é poder e os seres são considerados a partir de sua produção de capital, como empoderar e dignificar essas pessoas, que são excluídas do mercado de trabalho hoje? Como as levar para esferas além da prostituição e possibilitar funções e atuações diversas, para a ascensão dessa mazela?


Na tentativa de tratar essa ferida de maneira pragmática, a Associação Brasileira de Transgêneros (ABRAT), criou em 2013 o Transempregos para fazer uma ponte entre as candidatas e os representantes do mundo corporativo, que estivessem interessados em abrir as portas e também antenados nos movimentos inclusivos — potencializadores de receita. Como no estudo da consultoria McKinsey and co., que mostrou que empresas com diversidades étnicas, de gênero e culturas têm resultados de até 33% acima da média.


Os currículos dos transgêneros muitas vezes são desfavorecidos pela evasão escolar decorrente do bullying. No entanto, mais um dilema se apresenta: quanto mais qualificado um currículo for, mais difícil será para essa pessoa se colocar no ambiente de trabalho 𑁋 pois a posição almejada será de maior prestígio. E dentre o leque de opções destas organizações bem dispostas, o recorte racial também é determinante.


Mesmo nas empresas que hoje se dispõem a alocar esses profissionais , ainda existem diversos impasses práticos. Muitos deles, referentes ainda ao reconhecimento da identidade. Qual banheiro usar? Qual nome colocar no plano de saúde, quando o nome ainda está retificado? E a documentação? — impasses esses que o Transempregos esmiúçam em consultorias.


Ações como esta são plausíveis, necessárias e que redirecionam ativamente a transgeneridade de uma situação de risco, onde a violência é regra. E a prostituição, a única rota. Para qualquer utopia de sociedade igualitária se realizar, é necessário tirar as pessoas trans da esquina e levá-las para todo o mapa.



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